A reacção de Gabriel Hetland à calúnia por parte do candidato presidencial à nomeação do Partido Democrata, Bernie Sanders, de que Chávez foi um "ditador"

Caro Bernie,

Tal como milhões de Americanos, tenho acompanhado a sua campanha com um entusiasmo cada vez maior. É certeiro acerca dos efeitos perniciosos do aumento da desigualdade e é absolutamente correto que os Estados Unidos agora se assemelhem mais a uma oligarquia do que a uma democracia. Aplaudo a sua disposição em denunciar directamente e repetidamente a classe bilionária que governa este país. E apoio incondicionalmente o seu apelo por um sistema de saúde universal.

É com gosto que vemos como faz com que Hillary Clinton se contorça à medida que sobe nas sondagens. Sorriu sempre que imagino a possibilidade de um socialista confesso que apela à revolução política ganhar a nomeação Democrática. Encoraja-me que tenha tornado o combate ao racismo numa prioridade da sua campanha, juntamente com o resto da sua agenda progressista. 

Fiquei surpreso e consternado ao vê-lo referir-se ao falecido Hugo Chávez como “ditador comunista morto” a semana passada. Esperava tal coisa da parte de candidatos como Marco Rubio, Jeb Bush ou Hillary Clinton – não de alguém que apoiou os sandinistas nos anos 80 e aceitou petróleo de Chávez destinado aos sistemas de aquecimento dos residentes de Vermont com baixos rendimentos.

Sei que está extremamente ocupado nestes dias, Bernie, por isso compilei uma lista com dez razões pelas quais talvez queira pensar duas vezes antes de acusar Chávez de ter sido um ditador.

1. Hugo Chávez foi democraticamente eleito. Não uma vez. Nem duas vezes. Mas cinco vezes ao longo de quatorze anos. 

2. Chávez ganhou essas eleições por margens bem expressivas. Prevaleceu nas eleições de 1998 com 56% dos votos. Foi reeleito em 2000, obtendo 60% dos votos expressos. Em 2004, Chávez venceu o referendo de revogação com 59%. Em 2006 saíu novamente vitorioso, obtendo uns colossais 63% dos votos. E em 2012, enquanto falecia com cancro, mesmo assim triunfou, desta vez obtendo 55%. 

3. Nas raras ocasiões em que Chávez sofreu uma derrota política (e.g., o referendo de Dezembro de 2007 sobre as alterações constitucionais), aceitou-a de imediato. É verdade que Chávez se envolveu em certas práticas que são passivas de criticismo, tais como a redefinição geográfica dos distritos eleitorais e a utilização de decretos executivos para contornar a oposição no Congresso. Mas estas práticas são corriqueiras em muitas das democracias actualmente existentes, incluindo os EUA, e dificilmente podem ser interpretadas como um indício de que Chávez era um ditador.

4. O sucesso eleitoral de Chávez não se deveu a fraude eleitoral. A oposição venezuelana (que apoiou o golpe de Estado militar contra Chávez em 2002) e a comunicação social de massas dos EUA levantam frequentemente esta acusação, mas não existem quaisquer provas credíveis que a comprove. Como referiu Jimmy Carter, “das 92 eleições que monitorizamos [no Centro Carter], diria que o processo eleitoral da Venezuela é o melhor a nível mundial”.

5. A razão pela qual Chávez obteve tanto sucesso político foi porque implementou algumas políticas do mesmo género daquelas apoiadas por si. Depois de Chávez ter tomado posse, o Estado venezuelano mais que duplicou as verbas da Saúde e da Educação. (Certo, tal foi possível graças ao alto preço do petróleo entre 2003 e 2008, mas foi também possível graças ao sucesso de Chávez em reassumir o controlo estatal sobre o sector petrolífero, que se encontrava quasi-privatizado nos anos 90).

6. As políticas implementadas sob Chávez causaram uma melhoria sem precedentes no acesso aos cuidados de saúde, à educação, à habitação e às pensões. A pobreza na Venezuela desceu para metade entre 2003 e 2008, e a pobreza extrema caíu em 72%.

7. Chávez também obteve progressos na questão que mais lhe interessa: a desigualdade. Em 2012 a Venezuela era o país mais igualitário da América Latina.

8. Embora você não tenha afirmado querer construir “o socialismo do século XXI”, a Revolução Bolivariana de Chávez possui pelo menos algumas parecenças com o tipo de “revolução política” que você afirma defender. Em 1998, quando Chávez foi eleito pela primeira vez, a afluência às urnas foi de apenas 63%, uma das percentagens mais baixas na história democrática da Venezuela. Na última eleição de Chávez, foi de 81% - a participação mais alta desde 1988, quando o voto ainda era obrigatório na Venezuela. Em Dezembro de 2013, 59% dos eleitores registados foram às urnas das eleições locais – uma participação mais alta do que a de qualquer eleição presidencial nos EUA desde 1968.

Houve também um acréscimo significativo do interesse pela política na Venezuela enquanto Chávez esteve em funções. Nos três anos antes de Chávez tomar posse, o interesse pela política na Venezuela esteve consistentemente abaixo da média na América Latina (7-8% em cada ano). Em 2013, o ano em que Chávez morreu, a percentagem de venezuelanos que expressaram o seu interesse pela política (47%) foi o mais alto da América Latina e bem acima da média latino-americana (28%).

9. Sob Chávez, a Venezuela fez um progresso relevante, embora contraditório, tendo em vista o objectivo de se tornar numa “democracia participativa e protagonistizada”. Tal foi feito por intermédio da criação de inúmeras instituições participativas: conselhos comunitários, comités para a saúde e para a água, comunas, orçamentos participativos e outros. Estas instituições não são perfeitas, mas é indubitável que conseguiram fomentar um maior poder de decisão por entre os venezuelanos comuns. 

Aprendi em primeira mão por intermédio de um ano de investigação em várias cidades da Venezuela, incluindo Torres, um município no centro-ocidental da Venezuela onde os cidadãos comuns decidiam como atribuir 100% do orçamento municipal dedicado ao investimento. Miriam Gimenez, uma activista de base de Torres, falou-me acerca das melhorias que testemunhou quando Chávez tomou posse: “a vida do nosso povo mudou substancialmente uma vez que este processo deu à sociedade um lugar onde pode ser ouvida, onde pode estudar, trabalhar, lutar. Agora sabemos que estamos a viver, que valemos alguma coisa e que podemos ter esperança numa vida e num país dignificados.”

10. Retratar Chávez como um ditador é um insulto profundo aos milhões de venezuelanos que o apoiaram. Os chavistas não foram drones sem vontade própria que ofereceram o seu apoio incondicional a um “grande líder”. Foram e são participantes activos numa tentativa complicada e imperfeita, mas inspiradora e profundamente importante, para tentar forjar uma transformação radical. 

Espero que tenha algum tempo para ter estes pontos em consideração. Não só porque costumam acontecer coisas más aos países latino-americanos quando os presidentes dos EUA apodam os seus líderes democraticamente eleitos de ditadores, mas porque Chávez compeliu milhões de pessoas a participarem num processo democrático para uma reforma de fundo. E mesmo que os seus objectivos sejam um pouco menos ambiciosos que os de Chávez, você melhor que ninguém deveria reconhecer que a denúncia só servirá para atrapalhar os esforços do seu próprio reformismo. 

Sinceramente,

Gabriel

© JACOBIN | Todos os direitos reservados, traduzido sob expressa autorização | Gabriel Hetland é professor na Universidade de Albany e tem escrito acerca da política venezuelana para a revista Nation, NACLA, Qualitative Sociology e Latin American Perspectives.

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Propósito

1 – Apoiar a Revolução Bolivariana, a qual tem provado repetidamente a sua natureza democrática, na luta para libertar os oprimidos da Venezuela.

2 – Defender a Revolução contra os ataques do imperialismo e dos seus agentes locais, a oligarquia venezuelana.

3 – Apoiar a nova confederação sindical, UNT, como sendo a legítima voz do movimento trabalhista.

4 – Rebater as distorções e as mentiras da comunicação social acerca da Venezuela e mobilizar o máximo de apoio possível na defesa destes pontos.

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