O Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) condena veementemente e considera da maior gravidade as declarações do Presidente dos EUA, Donald Trump, proferidas ontem dia 11 de Agosto, onde afirma que a Administração norte-americana tem muitas opções para a Venezuela, incluindo a “opção militar”.

Estas inaceitáveis declarações de Trump colocam de novo em evidência o que há muito tem vindo a ser denunciado: que a desestabilização da Venezuela tem como principal responsável e promotor os EUA, que apoiam forças anti-democráticas e a violência de grupos fascistas com o objectivo de promover um golpe de Estado contra um país soberano, contra a sua Constituição, contra o seu legítimo governo, contra o seu povo.

Um golpe de Estado, atentatório da soberania e independência da República Bolivariana da Venezuela e direccionado contra todos aqueles que estão empenhados em construir um futuro de paz e de progresso social na Venezuela e um caminho de cooperação entre os povos da América Latina e Caraíbas livre da tutela e domínio dos EUA.

Recorde-se que estas declarações de Trump, que consubstanciam uma ameaça aberta de acção militar contra o povo venezuelano, não são um acto isolado dos EUA contra a Venezuela, recordemos, entre muitos outros exemplos: a ordem executiva de Obama, que declarou a Venezuela como uma ameaça inusual e extraordinária para a segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos; as declarações de sucessivos chefes do Comando Sul militar dos Estados Unidos – dirigido contra a América Latina e Caraíbas – relativamente a uma intervenção na Venezuela; ou as recentes declarações do director da CIA de aberta ingerência na situação venezuelana, assumindo abertamente a conspiração com os Governos da Colômbia e do México contra a Venezuela, não esquecendo as múltiplas e sucessivas sanções dos EUA contra este país.

Na sequência da grande participação popular na eleição da Assembleia Nacional Constituinte – demonstração de que o povo venezuelano rejeita a violência golpista, quer defender a paz e apoia o processo bolivariano –, os planos de ingerência, boicote económico e bloqueio financeiro dos Estados Unidos e seus aliados, incluindo a oligarquia reaccionária e anti-patriótica venezuelana, passam a uma nova e não menos perigosa fase.

O CPPC, reafirmando a sua firme solidariedade com a República Bolivariana da Venezuela e o seu povo, apela a todos os amantes da paz, democratas, defensores da soberania dos Estados e dos direitos dos povos, a expressarem a sua condenação da ingerência externa contra a Venezuela.
Há que prosseguir a solidariedade com a República Bolivariana da Venezuela e o povo venezuelano e a sua luta contra a ingerência externa e a violência golpista e em defesa da soberania nacional e do seu direito ao progresso social.

Direcção Nacional do CPPC

Pravda.ru - O ex-presidente da Câmara de Londres e membro da ala esquerda do Partido Trabalhista, protestou a má interpretação das suas palavras numa entrevista conduzida pela “Talk Radio” e mal citada pelo jornal britânico “The Guardian”, os excertos da entrevista foram transcritos na edição de 3 de Agosto sob o título “Ken Livingstone: a crise na Venezuela deve-se ao erro de Chávez não ter morto os oligarcas”, tendo inclusivamente eco em Portugal no diário “Público”, que no mesmo dia intitulou a notícia como “Em defesa de Caracas, ex-mayor de Londres diz que Chávez não quis ‘matar todos os oligarcas’”

O britânico “The Guardian” publicou no dia seguinte a rectificação de Ken Livingstone ultrajado pela transcrição errada das afirmações que o jornal recolhera da entrevista do ex-autarca do Partido Trabalhista à “Talk Radio”, sem qualquer justificação ou pedido desculpas. “Estou muito desapontado com o mau relato propositado dos meus comentários acerca da situação na Venezuela”, desabafa Livingstone no seu direito de resposta.

“Não afirmei que Hugo Chávez devia ter morto quem quer que fosse nem alguma vez defenderia tal coisa. Repudiei essa acusação inclusivamente no decorrer da própria entrevista que está a ser amplamente citada”, rectifica o ex-autarca. “O que estava a defender é que, contrariamente a algumas deturpações, Hugo Chávez não reprimiu a anterior elite governativa da Venezuela e muitos elementos dessa anterior elite permaneceram no país, tentando derrubar os presidentes eleitos", referindo-se a Chávez e a Maduro, "por meio de métodos violentos e inconstitucionais desde então (incluindo o golpe de 2002).”

A sua missiva termina com um alerta, “a situação na Venezuela requer um debate sério na comunicação social e não relatos jornalísticos distorcidos e sensacionalistas cujo único propósito é atrair leitores [clickbait].” 

Flávio Gonçalves

Está em curso na Venezuela algo que está para lá do clássico enfrentamento entre a esquerda e a direita, mas que se trata obviamente de um grave fenómeno de natureza social. Com a benção do Padre Jesuíta Numa Molina, a nova Assembleia Constituinte reuniu-se hoje em Caracas para proceder a alterações profundas da Constituição. Li com atenção a Constituição em vigor e lá está, com efeito, nos artigos 340, 341 e 343, a faculdade que assiste ao presidente em exercício convocar por solicitação de 115 deputados da Assembleia Nacional a eleição de um corpo de deputados com a finalidade de desencadear reformas constitucionais.

Assisto às intervenções e vejo que aquele meio milhar de deputados pertence a um tipo de venezuelano que não fazia parte, pelo menos até aos anos 90, da elite política dirigente do Estado. Mestiços, muitos mestiços, índios, negros e toda a variante de mesclas dominam a assembleia. Dir-se-ia que aquela gente estivera escondida atrás do palco durante séculos e que, subitamente, com o ascenso de Hugo Chávez, ganhou protagonismo e visi
bilidade. É evidente que quem tem acesso ao protagonismo, não cede e manter-se-á no poder. Os pobres venezuelanos já não saem do palco.

Trata-se, indiscutivelmente, de uma luta de classes, conflito que não é ainda uma guerra civil, mas que para lá poderá caminhar, caso as duas partes não consigam encontrar as bases para o diálogo. É sabido que sociedades autoritárias e marcadas por grande desigualdade engendram regimes políticos autoritários. Contudo, o actual governo da "revolução bolivariana" faz finca pé na igualdade e, como detém a força das armas, exerce um crescente autoritarismo que diz exprimir a vontade da maioria. Daí que este revolucionarismo - que ainda não é uma ditadura - se exprima de forma nacionalista. Entre os discursos que hoje ouvi e aqueles que Robespierre pronunciava na Convenção Nacional, poucas diferenças haverá, salvo os de pormenor geográfico e histórico.

Assim, para a chamada oposição, parece não haver outra solução que a de aceitar uma reforma social profunda, pois a alternativa seria uma guerra civil que não poderia ganhar e, logo a instauração de um regime revolucionário. O pior que poderia acontecer seria uma intervenção estrangeira, pois, lembramos, foi uma intervenção estrangeira que salvou a Revolução Francesa.

Miguel Castelo Branco

Já vivi similar "revolução" na Tailândia

1. Maduro é um monumento à incompetência e à inabilidade. Sem o carisma e a generosidade de Chávez, tem sido, desde a sua investidura, um problema acrescido às já muito graves dificuldades económicas com que se debate a Venezuela em consequência da súbita privação de ¾ das receitas outrora angariadas pela exportação de ramas petrolíferas, crise agravada por cinco anos de terrível seca de que não há memória e que provocou a ruptura da produção de bens alimentares, mas também por um modelo distributivo que não soube diversificar a estrutura económica do país. A governação bolivariana – que não é uma ditadura, muito menos um regime “comunista” – falhou ao não saber articular programas de justiça social e igualdade de cidadania com planos de fomento que equilibrassem uma economia inteiramente assente no ouro negro. É elemento de toda a evidência que Maduro falhou e que a Venezuela não pode continuar por muito mais tempo exposta a uma situação de paralisação e desnorte.

2. Contudo, compreendendo a natural agitação social resultante do colapso económico num país que já conheceu igual [ou pior] há cerca de duas décadas – Chávez chegou ao poder após o completo fracasso de Carlos Andrés Pérez – parece-nos que a agitação em curso se assemelha, não a mais uma revolução colorida, mas a um verdadeiro golpe de Estado. Na internacionalização da crise venezuelana e indiscutível intervenção externa nos assuntos daquele país, a imprensa internacional tem demonstrado não mais querer que constituir-se em agente, e não em observadora. Não deixa de ser sintomático o facto de, entre as centenas de enviados pela imprensa ocidental, 80% dos profissionais ali acreditados não serem jornalistas, mas fotógrafos, ou seja, coleccionadores de imagens fortes angariadoras de comoções.

3. Em 2009 e 2010, assisti a algo de muito parecido na Tailândia, onde residi durante quase quatro anos. Ali, estava em curso um levantamento dos seguidores do antigo primeiro-ministro Thaksin Shinawatra – os chamados Vermelhos, aliança espúria de plutocratas e do clandestino PC da Tailândia.

4. O modus operandi de quantos estavam apostados em derrubar pela violência a monarquia constitucional em nada divergia daquilo que está em curso na Venezuela: manifestações que terminavam em vandalização de edifícios, ocupação de avenidas e levantamento de barricadas, apedrejamento das forças da ordem obrigando a repressão para, depois, com centos de fotógrafos estrangeiros estrategicamente postados, dar ao mundo os argumentos de condenação de um governo que cumpria uma das atribuições de qualquer poder constituído, ou seja, a manutenção da ordem nas ruas.

5. Lembro-me bem das inflamadas parangonas do The Wall Street Journal, do New York Times, do Le Monde, do Corriere della Sera e do Süddeutsche Zeitung, das sensacionais acusações que produziam contra a monarquia – “feudalismo”, “clique aristocrática”, “regime opressor”, “palácio rapinador” – com o propósito de gerar na opinião pública ocidental o estado de espírito necessário a desculpar quaisquer violências cometidas pelos Vermelhos. Tal como acontecera no Nepal para o derrube da monarquia, as embaixadas ocidentais em Bangkok passaram a funcionar como centros de apoio aos revoltosos, facultando-lhes acesso às cadeias de televisão, produzindo sucessivas condenações à actuação das forças da ordem, espalhando boatos e até enviando funcionários seus às manifestações vermelhas. Aliás, nada que não tenhamos já visto na Ucrânia, na Hungria, no Egipto, na Síria e até em Moscovo.

6. Estas “revoluções” – amiúde numericamente muito pouco expressivas – requerem imagens fortes, ou seja, violência. Os ocidentais têm por hábito dar sempre razão a quem ataca a polícia, pelo que basta uma carga policial para se produzir o efeito psicológico pretendido. Como se em Paris, em Frankfurt ou Washington uma carga policial não visasse o mesmo efeito de reposição da ordem de uma carga policial em Caracas, em Moscovo ou em Kiev!

7. O que me espantou na crise dos Vermelhos em Bangkok foi a disparidade de meios entre manifestantes e forças da polícia. A polícia investia com bastões, escudos, canhões de água e gás lacrimogénio, mas o vermelhos respondiam a tiro, usavam lança-granadas e bombas artesanais. Espantou-me também – fui convidado pelo MNE tailandês para prestar colaboração na produção de textos que serenassem as excitações nas chancelarias ocidentais, pelo que tinha acesso diário às listas de mortos e feridos entrados nos hospitais – que a comunicação social ocidental fizesse amálgama e interpretasse os dados de forma manifestamente desonesta.

8. Ora, neste ciclo de violência em que mergulhou a Venezuela desde Abril, na imprensa internacional alude-se sistematicamente às “130 vítimas da repressão”(1). Sem discriminação de dados, estas 130 mortes são contabilizadas como consequência de investidas das forças da ordem. Omitem os propaladores que, destas 130 vítimas mortais, 16 perderam a vida em assaltos e saque de superfícies comerciais (doze assaltantes e quatro proprietários); 14 morreram em barricadas (dez falecidos em consequência de disparos desferidos por revoltosos, sendo que os restantes quatro eram manifestantes); 11 manifestantes mortos no decurso de marchas; 4 assassinatos em ajustes de contas entre grupos da oposição; 5 vítimas linchadas ou queimadas vivas por grupos da oposição ao governo; 1 por crise cardíaca e que não foi assistida por a ambulância que a transportava ao hospital não ter podido transpor uma barricada; 4 por manipulação inábil de explosivos; 24 peões apanhados no fogo cruzado entre a polícia e os manifestantes, mas que não estavam envolvidas em quaisquer protestos; 7 polícias mortos; 30 sem relação directa com os protestos, mas possivelmente crimes de sangue; 4 por causas desconhecidas; 10 militantes ou dirigentes do partido do governo. Em resultado de uso excessivo de violência, o governo instaurou processos de investigação, processando, julgando e condenando a penas de prisão 39 agentes policiais.

9. Por último, não poderia deixar de convidar os ainda indecisos a analisarem as fotos dos tipos humanos predominantes nas manifestações. Há ali gente carecida, esfarrapada, com sinais de fome e penúria extrema? Onde está, pois, o povo pequeno? Por mais que procure, só vejo burguesia e aqueles que menos expostos estão à desastrosa situação por que passa o país. Seria como se a Quinta da Marinha saísse à rua para protestar contra a crise económica.

A análise serena, distanciada e fria é sempre a melhor conselheira. Compreendemos, assim, a louvável prudência do nosso MNE na análise da situação venezuelana pois, sei-o de fonte fidedigna, a nossa diplomacia tem trabalhado com base na verdade, e não com ebulições ideológicas. Para quem quer deixar os 15 anos mentais para quem os tem, a racionalidade obtém-se pela análise serena. Que pena, sou uma cabeça muito pouco ideológica.

Miguel Castelo Branco

(1) Dados coligidos a partir dos relatórios hospitalares, ONG’s, comunicação social e entidades governamentais.

Resistir.info - O processo eleitoral vivido domingo na Venezuela e seus resultados quantitativos mostram claramente um triunfo do chavismo, que além disso tem uma poderosa correlação no político e no simbólico. 

A "batalha final" nem foi em Miraflores nem se decidiu com balas: foi com votos e o resultado foi contundente. O chavismo agora tem toda a legitimidade e o suporte legal para avançar sem vacilações numa profunda modificação do quadro constitucional para assegurar a paz, fortalecer a institucionalidade e recuperar o equilíbrio da economia. 

Uma análise preliminar permite identificar um conjunto de pontos chave sobre as consequências dos factos: 

1) Fica demonstrado que a oposição associada à MUD [coligação da direita] não é maioria. 

2) Tão pouco é a expressão das expectativas e necessidades da maioria ou dos principais sectores do país. Nem sequer dos sectores dominantes. 

3) Não estão ao serviço dos interesses nacionais e sim de factores externos bem identificados, o que nem sequer tentam disfarçar ou dissimular. 

4) Demonstraram seu carácter violento e sua irresponsabilidade no uso da violência. 

5) Pela sua parte, o chavismo demonstrou que é o único bloco político capaz de propor e impulsionar um projecto nacional inclusivo, que incorpore os principais factores sociais, institucionais, económicos e políticos do país, entre os quais não estão excluídos os vinculados organicamente com a oposição agrupada na MUD. 

6) A MUD, em contrapartida, deixou para a história sua não pertinência política que a converteu numa ameaça para a independência, a paz, a estabilidade institucional e o equilíbrio económico da Venezuela. O bloco opositor não pode superar a simples pretensão de tomar o poder e, em vez de desenvolver uma proposta política, ficou preso numa dinâmica absolutamente destrutiva. 

7) A origem e desenvolvimento do conflito agudizado desde 2012 é de carácter económico e é determinado pelo acesso e a distribuição da renda petrolífera. Em consequência, a Venezuela não pode continuar a evadir o debate sobre a superação do modelo do rentismo petrolífero assim como de todos os elementos simbólicos derivados. Isto exige aproveitar a posição vantajosa da Constituinte para tomar decisões radicais que desmontem as estruturas produtivas altamente dependentes do sector externo. 

8) As condições de violência de rua e o contexto de ameaças em que se deu a votação obrigou o chavismo a assumir um compromisso maior. Paradoxalmente essas condições podem ter funcionado como um estímulo à participação. Assim se verificou em 2002-2003 após a sabotagem petrolífera, em 2004, antes do revogatório, dentre outras datas. Hoje o chavismo descontente e uma parte dos nem-nem (se se pode falar de tal categoria) foram votar. O melhor que poderia esperar a MUD era a indiferença. 

9) O chavismo agora converte-se no principal moderador e impulsionador da conversação política, mas isso o obriga a ser mais inclusivo (no militante) e mais amplo no temático, no momento que se envolve no concreto de cada factor social. 

10) Uma boa parte das obrigações do chavismo implica a construção de uma cosmogonia e de uma teleologia do povo venezuelano que seja capaz de ser uma alternativa aos valores culturais do capital. Isso inclui aspectos relacionados com o transcendental e a religiosidade. 

31/Julho/2017

Victor Hugo Majano


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Resistir.info - A sociedade capitalista tem como um dos seus traços principais a opacidade. Se nos antigos modos de produção pré-capitalistas a opressão e a exploração dos povos saltava à vista e adquiria inclusive uma expressão formal e institucional com hierarquias e poderes, no capitalismo prevalece a obscuridade e, com ela, o desconcerto e a confusão. Foi Marx que com a descoberta da mais-valia descobriu o véu que ocultava a exploração a que eram submetidos os trabalhadores "livres", emancipados do jugo medieval. E foi ele também que denunciou o fetichismo da mercadoria numa sociedade onde tudo se converte em mercadoria e portanto tudo se apresenta de modo fantasmagórico perante os olhos da população. 

O que acaba de ser dito vem a propósito da negação do papel da CIA na vida política dos países latino-americanos, ainda que não só neles. O seu activismo permanente é inevitável e não pode passar desapercebido diante de um olhar minimamente atento. Apesar disso, quando se fala da crise na Venezuela – para tomar o exemplo que agora nos preocupa – e das ameaças que pairam sobre esse país irmão, nunca se nomeia a "Agência", salvo poucas e isoladas excepções. A confusão que com a sua opacidade e seu fetichismo gera a sociedade capitalista faz novas vítimas no campo da esquerda. Não deveria surpreender que a direita encoraje este encobrimento da CIA. A imprensa hegemónica – na realidade, a imprensa corrupta e canalha – nunca a menciona. É um tema tabu para estes impostores seriais. Nem a ela, a CIA, nem a nenhuma das outras quinze agências que constituem em conjunto o que nos Estados Unidos se denomina amavelmente como "comunidade de inteligência". Eufemismos à parte, é um terrível conglomerado de dezasseis bandos criminosos financiados com fundos do Congresso dos Estados Unidos e cuja missão é dupla: recolher e analisar informação e, sobretudo, intervir activamente nos diversos cenários nacionais com uma amplitude acção que vai desde o manejo e a manipulação da informação e o controle dos meios de comunicação até a captação de líderes sociais, funcionários e políticos, a criação de organizações de fachada dissimuladas como inocentes e insuspeitas ONGs dedicadas a causa humanitárias inobjectáveis até ao assassinato de líderes sociais e políticos incómodos e a infiltração – e destruição – em toda classe de organizações populares. Vários arrependidos e enojados ex-agentes da CIA descreveram tudo isto com todo pormenor, com nomes e datas, o que me dispensa de discorrer sobre o tema. [1] 

Que a direita seja cúmplice do encobrimento do protagonismo dos aparelhos de inteligência dos Estados Unidos é compreensível. Faz parte do mesmo bando e protege com um muro de silêncio seus apaniguados e sicários. O que é absolutamente incompreensível é que representantes de alguns sectores da esquerda – nomeadamente o trotsquismo –, o progressismo e certa intelectualidade presa nos embriagantes vapores do pós-modernismo inscreva-se neste negacionismo em que não só a CIA desaparece do horizonte da visibilidade como também o imperialismo. Estas duas palavras, CIA e imperialismo, nem por sombras irrompem nos numerosos textos escritos por personagens daquelas correntes acerca do drama que hoje se desenvolve na Venezuela e que, diante dos seus olhos, parece ter como único responsável o governo bolivariano. Aqueles que se inscrevem nessa errónea – insanavelmente errónea – perspectiva de interpretação esquecem-se também da luta de classes, que brilha pela sua ausência sobretudo nas análises de supostos marxistas que não são senão "marxólogos", isto é, cultos doutores embriagados pelas palavras, como por vezes dizia Trotsky, mas que não compreendem a teoria nem muito menos a metodologia na análise marxista e por isso, diante dos ataques que sofre a revolução bolivariana, exibem uma gélida indiferença que, de facto, converte-se em complacência com os planos reaccionários do império. 

Toda esta horrível confusão, estimulada como dizíamos a princípio pela própria natureza da sociedade capitalista, dissipa-se quando se recorda as infindáveis intervenções criminosas que a CIA executou na América Latina (e onde fosse necessário) para desestabilizar processos reformistas ou revolucionários. Uma enumeração sumária a voo de pássaro, inevitavelmente incompleta, destacaria o papel sinistro desempenhado pela "Agência" na Guatemala, em 1954, ao derrubar o governo de Jacobo Arbenz organizando uma invasão dirigida por um coronel mercenário, Carlos Castillo Armas, o qual, depois de fazer o que lhe fora ordenado, foi assassinado três anos depois no Palácio Presidencial. Continuemos: o Haiti, em 1959, sustentando o então ameaçado regime de François Duvalier e garantindo a perpetuidade e o apoio a essa dinastia criminosa até 1986. Nem falemos do envolvimento intenso da "Agência" em Cuba, desde o princípio das Revolução Cubana, actividade que continua até o dia de hoje e que regista como um dos seus feitos principais a invasão de Playa Girón em 1961. Ou no Brasil, em 1964, assumindo um papel activíssimo no golpe militar que derrubou o governo de João Goulart e afundou esse país sul-americano numa ditadura brutal que perdurou por duas décadas. Em Santo Domingo, República Dominicana, em 1965, apoiando a intervenção dos marines lutando contra os patriotas dirigidos pelo coronel Francisco Caamaño Deño. Na Bolívia, em 1967, organizando a caça do Che e ordenando a sua execução covarde depois de caído ferido e capturado em combate. A CIA permaneceu no terreno e diante da radicalização política que se verificava na Bolívia conspirou para derrubar o governo de Juan J. Torres em 1971. No Uruguai, em 1969, quando a CIA enviou Dan Mitrione, um especialista em técnicas de tortura, para treinar os militares e a polícia a arrancar confissões aos Tupamaros. Mitrione foi justiçado por estes em 1970, mas a ditadura instalada pela "embaixada" desde 1969 perdurou até 1985. No Chile, desde princípios dos anos sessenta e intensificando a sua acção com a cumplicidade do governo democrata-cristão de Eduardo Frei. Na mesma noite em que Salvador Allende ganhou as eleições presidenciais de 4 de Setembro de 1970 o presidente Richard Nixon convocou com urgência o Conselho Nacional de Segurança e ordenou à CIA que impedisse por todos os meios a posse do líder chileno e, no caso de isso ser impossível, não poupar esforços nem dinheiro para derrubá-lo. "Nem um parafuso nem uma porca para o Chile" disse esse labrego que a seguir seria despejado da Casa Branca por um julgamento político. Na Argentina, em 1976, a CIA e a embaixada foram colaboradores activos da ditadura genocida do general Jorge R. Videla, contando inclusive com a ajuda descarada e o conselho do então secretário de Estado Henry Kissinger. Na Nicarágua, sustentando contra ventos e maré a ditadura somozista e, a partir do triunfo do sandinismo, organizado os "contra" recorrendo inclusive ao tráfico ilegal de armas e drogas a partir da própria Casa Branca para alcançar seus objectivos. Em El Salvador, desde 1980, para conter o avanço da guerrilha da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional, envolvendo-se activamente durante os doze anos que durou a guerra civil a qual deixou um saldo de mais de 75 mil mortos. Em Granada, liquidando o governo marxista de Maurice Bishop. No Panamá, 1989, invasão orquestrada pela CIA para derrubar Manuel Noriega, um ex-agente que pensou poder tornar-se independente dos seus chefes, provocando pelo menos 3.000 mortos na população. No Peru, a partir de 1990, a CIA colaborou com o presidente Alberto Fujimori e seu chefe do Serviço de Inteligência, Vladimiro Montesinos, para organizar forças paramilitares a fim de combater o Sendero Luminoso, deixando um saldo fúnebre de milhares de vítimas. Dados estes antecedentes, alguém poderia pensar que a CIA permaneceu de braços cruzados diante da presença das FARC-EP e do ELN na Colômbia, onde os Estados Unidos contam com sete bases militares para a instalação das suas forças? Ou que não actua sistematicamente para corroer as bases de sustentação de governos como os de Evo Morales e, na altura, de Rafael Moreno e hoje de Lenin Moreno. O que se retirou para quartéis de inverno e deixou de actuar na Argentina, Brasil e em toda esta imensa região constituída pela América Latina e o Caribe, considerada como justa razão como a reserva estratégica do império. Só por um cúmulo de ignorância ou ingenuidade poderia pensar-se em tal coisa. 

Portanto, será alguém se pode surpreender com o protagonismo que a CIA está a ter hoje na Venezuela, o "ponto quente" do hemisfério ocidental? Podem os dirigentes norte-americanos – os reais, o deep state como dizem seus observadores mais lúcidos, não as carrancas de proa que despacham na Casa Branca – ser tão ineptos que se desinteressem da sorte que possa correr a luta colocada contra a Revolução Bolivariana no país que conta com a maiores reservas provadas de petróleo do mundo? Pode ser que para o trotsquismo latino-americano e outras correntes igualmente extraviadas na estratosfera política o MUD e o chavismo "sejam as mesma coisa" e [por isso] não provoque nessas correntes senão uma indiferença suicida. Mas os administradores imperiais, que sabem o que está em jogo, estão conscientes de que a única opção que têm para apoderar-se do petróleo venezuelano – objectivo não declarado mas excludente de Washington – é acabar com o governo de Nicolás Maduro deixando de lado qualquer escrúpulo a fim de obter esse resultado, desde queimar pessoas vivas a incendiar hospitais e infantários. Sabem também que a "mudança de regime" na Venezuela seria um triunfo extraordinário do imperialismo norte-americano porque, ao instalar em Caracas seus peões e lacaios, os mesmos que se orgulham da sua condição de lambe botas do império, esse país se converteria de facto num protectorado norte-americano, montando uma farsa pseudo-democrática – como a que já existe em vários países da região – que só uma nova onda revolucionária poderia chegar a desbaratar. E diante dessa opção, império versus chavismo, não há neutralidade que valha. Não nos é indiferente, não pode nos ser indiferente uma coisa ou a outra! Porque por mais defeitos, erros e deformações que haja sofrido o processo iniciado por Chávez em 1999; por mais responsabilidade que tenha o presidente Nicolás Maduro em evitar a desestabilização do governo, os acertos históricos do chavismo superam amplamente seus desacertos e pô-lo a salvo da agressão norte-americana e dos seus serventuários é uma obrigação moral e política inescapável para aqueles que dizem defender o socialismo, a autodeterminação nacional e a revolução anti-capitalista. E Isto, nada menos que isto, é o que está em jogo nos próximos dias na terra de Bolívar e de Chávez e, nesta encruzilhada, ninguém pode apelar à neutralidade ou à indiferença. Seria bom recordar a advertência que Dante colocou à entrada do Sétimo Círculo do Inferno: "Este lugar, o mais horrendo e ardente do Inferno, está reservado para aqueles que em tempos de crise moral optaram pela neutralidade". Tomar nota. 

26/Julho/2017

[1] Ver John Perkins, Confesiones de un gángster económico. La cara oculta del imperialismo norteamericano (Barcelona: Ediciones Urano, 2005). Edição original: Título original: Confessions of an Economic Hit Man First publicado por Berrett-Koehler Publishers, Inc., San Francisco, CA, USA.   O livro de Perkins pode ser descarregado em resistir.info/livros/livros.html .   Ver também o texto pioneiro de Philip Agee, de 1975, Inside the company, publicado na Argentina sob o título La CIA por dentro. Diario de un espía (Buenos Aires: Editorial Sudamericana 1987) 

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org/... 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Atilio A. Borón

Venezuela está a ser alvo de uma acção de ingerência e desestabilização que, explorando reais problemas económicos, visa paralisar a acção do seu legítimo governo, confrontar a Constituição venezuelana e atacar o processo bolivariano e as suas realizações.

Não são os interesses do povo venezuelano que estão por detrás do boicote económico, açambarcamento e especulação. Não são os valores democráticos que estão por detrás dos actos de violência com que grupos reaccionários e de extrema direita tentam lançar o caos naquele País. Não é a verdade que se defende quando se apresenta como opressor um governo democraticamente eleito que tenta manter a ordem e assume a defesa da lei e da Constituição. Não são os interesses da Venezuela e os valores da paz que estão por detrás das acções de uma “oposição” que instiga à agressão externa contra a Venezuela.

O que está verdadeiramente em causa na Venezuela é uma tentativa de golpe de Estado contra um país soberano, contra a sua Constituição e o seu legítimo governo. Um golpe antidemocrático, atentatório da soberania e independência da Venezuela bolivariana, direccionado contra todos aqueles que continuam empenhados em construir um futuro de progresso social, de afirmação soberana e de cooperação entre os Estados da América Latina visando o interesse dos trabalhadores e povos daquela região.

O verdadeiro objectivo que preside às manobras de ingerência e desestabilização contra a Venezuela e às campanhas de mentira e manipulação que as acompanham, é o da tentativa de recuperação do domínio dos EUA posto em causa com os processos progressistas na América Latina.

Estar ao lado do povo venezuelano, dos seus direitos e da verdade significa estar do lado dos que, depois das Honduras, do Paraguai e do Brasil, resistem a mais uma tentativa de golpe de Estado no continente latino-americano. É prestar solidariedade ao povo da Venezuela defendendo a sua soberania. É rejeitar a criminosa guerra económica, mediática, política e diplomática movida contra a Venezuela, um país que tantos emigrantes portugueses acolheu.

Este é o momento de expressar a nossa solidariedade às forças progressistas e ao povo venezuelano. Assim, apelamos a que no próximo dia 5 de Julho, pelas 11:30, junto à estátua de Simon Bolivar, na Avenida da Liberdade, todos nos associemos às comemorações do Dia da Independência da Venezuela e expressemos a nossa solidariedade com o seu povo.

Sob o título “O Que Está Realmente a Acontecer na Venezuela” decorreu em Bruxelas um encontro que contou com a presença de 85 pessoas, apesar das várias ameaças por parte de apoiantes da oposição venezuelana em perturbar o evento. O encontro encontrou-se inserido no mais recente “Jeudi du Marxism”, em evento organizado mensalmente em Bruxelas pela secção local da Tendência Marxista Internacional e que, desta vez, contou com a organização conjunta da campanha Tirem As Mãos Da Venezuela! 

Para responder às questões acerca do activismo violento que tem sido extremamente mediatizado pela comunicação social de massas, foram convidados três oradores: Ronnie Ramirez, cineasta chileno a residir actualmente na Bélgica e que costumava trabalhar frequentemente na Venezuela; Erik Demeester, activista da campanha de solidariedade internacional Tirem As Mãos Da Venezuela! e Luis Vargas, membro da Juventude dos Trabalhadores Cristãos da Venezuela.

À semelhança de eventos ocorridos em Espanha, na Alemanha e no Reino Unido, foram várias as ameaças de violência recebidas por parte de apoiantes da oposição venezuelana, que iniciou há meses uma campanha internacional de “caça ao homem” visando familiares de políticos bolivarianos, apoiantes do governo venezuelano e inclusivamente meros funcionários e familiares de trabalhadores das embaixadas e consulados venezuelanos no estrangeiro, algo que tem contado com o repúdio inclusivamente de sectores mais moderados da oposição, embora minoritários. 

Recorde-se que também em Portugal já decorreram também protestos e tentativas de intimidação junto das instalações da Embaixada da República Bolivariana da Venezuela em Lisboa e ao Consulado da República Bolivariana da Venezuela no Funchal, arquipélago da Madeira. 

A organização achou que a melhor defesa seria publicitar o mais possível o encontro e optou por pendurar centenas de cartazes em Bruxelas a anunciar o evento e publicitá-lo amplamente nas redes sociais. A Tirem As Mãos Da Venezuela! e a Tendência Internacional Marxista conseguiram também reunir 20 voluntários dispostos a defender o encontro na eventualidade de um ataque, e um grupo Antifa de Bruxelas afirmou estar disponível para aparecer em caso de ataque às instalações, o que acabou por não ser necessário uma vez que o evento decorreu sem qualquer incidente. 

A polícia foi alertada para a possibilidade de haver uma manifestação de protesto por parte de activistas hostis ao governo venezuelano e a organização na sua convocatória abriu a porta ao diálogo, afirmando que caso algum membro da oposição quisesse tomar a palavra a mesma não lhe seria negada, desde que não tentassem sabotar o encontro. Apesar de vários apelos nas redes sociais por parte da oposição para que fosse organizado um protesto e das ameaças recebidas pela organização, não houve qualquer manifestação ou protesto. Embora não estivesse agendada a sua presença, os embaixadores da República Bolivariana da Venezuela e da República de Cuba na Bélgica decidiram surpreender os conferencistas com a sua presença e solidariedade.


Erik Demeester, coordenador belga da Tirem As Mãos Da Venezuela! apresentou uma perspectiva global acerca do que está a acontecer na Venezuela, alertando que “se trata de uma tentativa sustentada e coordenada para derrubar um governo democraticamente eleito e o seu presidente. Contam com a ajuda da oligarquia local e do imperialismo. Não nos podemos manter neutros… e em simultâneo devemos levar a cabo uma análise crítica do desenvolvimento das políticas do governo. Fazer concessões à classe capitalista não a irá acalmar. No seio do movimento popular há uma exigência cada vez maior para a radicalização da revolução ou esta acabará por morrer.” A Tirem As Mãos Da Venezuela! tem defendido reiteradamente que a sua defesa incondicional da revolução bolivariana contra os ataques das forças imperialistas e de direita não a isentam de se solidarizar de modo crítico para com o governo.

Ronnie Ramirez analisou o papel dos truques utilizados pela comunicação social de massas para obscurecer a revolução, tendo dado vários exemplos práticos de manipulação mediática e desmistificado algumas mentiras e distorções que têm sido publicadas como facto na imprensa belga e internacional, quando na realidade são mero fruto da propaganda da oposição. Explicou também que apesar da crença disseminada no exterior, a verdade é que a maior parte dos órgãos de comunicação social na Venezuela ainda se encontram sob o controlo do sector privado e que a imprensa alternativa de âmbito comunitário é quem está a tentar contrapor esse monopólio. 

Luis Vargas, da Juventude dos Trabalhadores Católicos da Venezuela, defendeu, antes de mais, a revolução e as suas conquistas. “Não vou negar que há uma situação social e económica desesperante, mas rejeito a explicação da direita para essa mesma crise”, defendeu. Foi a primeira vez que muitos simpatizantes bolivarianos europeus puderam contactar directamente com alguém que tem estado no terreno na Venezuela, tendo o mesmo explicado que existem muitas contradições entre os vários sectores bolivarianos quando à necessidade de uma radicalização da revolução bolivariana. “As eleições para a criação de uma nova Assembleia Constituinte são uma oportunidade para o movimento popular mas também podem ter os mesmos resultados do passado, em que os burocratas acabam por tomar conta do processo.”

No final o embaixador da República Bolivariana da Venezuela em Bruxelas tomou a palavra e levou a cabo a defesa do governo e do presidente contra os ataques a que têm sido sujeitos. Estiveram também presentes e colocaram algumas questões um pequeno número de opositores. Espera-se que este evento dê um novo ímpeto mobilizador ao movimento de solidariedade bolivariana na Bélgica.

Flávio Gonçalves

Pravda.ru

Resistir.info - Enfiemo-nos na pele de uma pessoa que apenas dispusesse dos media para se informar sobre a Venezuela e que dia após dia se falasse de 'manifestantes' e " ;repressão" ;. Como não entender que essa pessoa acreditasse que a população está na rua e que o governo a reprime? 

Porém, não há nenhuma revolta popular na Venezuela. Apesar da guerra económica a grande maioria da população vai para as suas ocupações, trabalha, estuda, sobrevive. É por isso que a direita organiza as suas marchas com início nos bairros ricos. É por isso que recorre à violência, ao terrorismo e se localiza nos municípios de direita. Os bairros venezuelanos são em 90%, bairros populares. Compreende-se a enorme lacuna: os media transformam as ilhas sociológicas das camadas ricas (alguns % do território) em "Venezuela". E 2% da população em "população". [1] 

A ex-presidente argentina Cristina Fernandez, depois de Evo Morales, denunciou: "a violência é utilizada na Venezuela como metodologia para alcançar o poder e derrubar um governo" [2] . Do Equador, o ex-presidente Rafael Correa recordou que "a Venezuela é uma democracia. É através do diálogo, com eleições, que devem ser resolvidas as diferenças. Muitos casos de violência vêm claramente dos partidos da oposição [3] . Esta também é a posição do Caricom, que inclui os países do Caribe [4] . O papa Francisco teve que incitar os bispos da Venezuela que, como no Chile em 1973, arrastavam os pés face ao diálogo nacional proposto pelo Presidente Maduro [5] . Este lançou o processo participativo para a Assembleia Constituinte, e confirmou a eleição presidencial legalmente prevista para 2018. 

Assembleia Popular. Desde o desaparecimento de Hugo Chávez, em 2013, a Venezuela é vítima de uma guerra económica que visa privar a população de bens essenciais, principalmente alimentos e medicamentos. A direita local reúne certos elementos da estratégia implementada no Chile pelo par Nixon-Pinochet, claramente para causar a exasperação dos sectores populares e legitimar a própria violência. De acordo com o relatório do orçamento 2017 colocado no site do Departamento de Estado [6] , Foram entregues 5,5 milhões de dólares à "sociedade civil" da Venezuela. O jornalista venezuelano Eleazar Diaz Rangel, editor do diário Últimas Notícias (centro-direita) revelou trechos do relatório que o Almirante Kurt Tidd, chefe do comando Sul, enviou para o Senado dos EUA: "com a política do MUD (coligação da oposição venezuelana) estabelecemos uma agenda comum, que inclui um cenário duro, combinando acções de rua e dosificando o emprego da violência a partir da perspectiva de cerco e asfixia." [7] 

A fase insurreccional implica atacar os serviços públicos, escolas, maternidades (El Valle, El Carrizal), instituições de saúde, bloquear ruas e artérias principais para bloquear a distribuição de alimentos e paralisar a economia. Através dos media privados, a direita apela abertamente aos militares para realizarem um golpe de Estado contra o Presidente eleito [8] . Mais recentemente os bandos paramilitares colombianos passaram do papel de formadores para um papel mais activo: o corpo sem vida de Pedro Josué Carrillo, militante chavista, acaba de ser encontrado no Estado de Lara, com marcas de tortura típicas do país de Uribe [9] . 

Apesar dos morteiros, armas, granadas ou coquetéis Molotov usados por manifestantes " ;pacíficos" ; (sem esquecer as efígies de chavistas enforcadas em pontes, assinatura dos paramilitares colombianos), a lei proíbe a polícia ou a guarda nacional de usar as armas de fogo. Manifestantes da direita aproveitam a oportunidade para forçar a sua vantagem e evidenciam o seu ódio sobre guardas ou polícia, provocá-los com jactos de urina, excrementos e disparos com balas reais, observando a reacção das câmaras da CNN. 

Elementos das forças de segurança que desobedeceram e foram culpados de ferimentos ou mortes de manifestantes foram presos e processados [10] . O facto é que a grande maioria das vítimas são trabalhadores que iam para o trabalho ou voltavam, activistas chavistas ou elementos das forças da ordem [11] . É por isso que os media falam de mortes em geral – para que se acredite que se trata de "mortos pelo regime." A lista dos "mortos" serve para aumentar o apoio global à desestabilização: há nestes assassinatos, é terrível constatá-lo, o efeito de uma encomenda para os media. 


'Qualquer manifestante que mata, destrói, agride, tortura, sabota sabe que será santificado pelos media internacionais. Estes tornaram-se um incentivo para perseguir o terrorismo. Todos os mortos, todas as sabotagens económicas serão atribuídas ao "regime", incluindo dentro da Venezuela, onde os media, como a economia, é na sua maioria privada. Que a democracia participativa que é a da Venezuela tente defender-se como compete a todo o Estado de direito, vai ser imediatamente denunciada como "repressiva". Quem ouse punir um terrorista, e isto o tornará de imediato um "preso político". Para o jornalista e sociólogo argentino Marco Teruggi " ; uma intervenção na Venezuela, o governo dos Estados Unidos tem condições mais favoráveis do que tinha para bombardear a Líbia, tendo em conta o facto de que a União Africana tinha condenado essa intervenção quase por unanimidade. (..) Tudo depende da capacidade da direita manter mais tempo o braço de ferro na rua como espaço político. Donde a importância de manter a caixa de ressonância mediática". [12] 

Exemplo sórdido desta ligação: em 5 de Maio de 2017, usando uma foto digna de um fotograma de Hollywood (mas que não é a da vítima) Le Monde denuncia "a morte de um líder estudantil morto durante os protestos contra o projecto do Presidente Maduro convocar uma Assembleia Constituinte". Ora a vítima, Juan (e não José como escreveu Le Monde ) Bautista Lopez Manjarres é um jovem líder estudantil revolucionário, assassinado por um comando da direita quando participava numa reunião em apoio do processo da Assembleia Constituinte. 

'. Le Monde menciona também a reacção do maestro Gustavo Dudamel, em digressão no estrangeiro, pedindo para que "cesse a repressão" após a morte do jovem violista Armando Canizales. No entanto, este músico não foi vítima da repressão, mas também ele de um projéctil disparado das fileiras da direita. 

O jornal espanhol La Vanguardia, virulentamente oposicionista da Revolução Bolivariana, admite excepcionalmente pelo texto do seu enviado especial Andy Robinson: "Tal como em outros momentos da crise, a narrativa de uma juventude heróica, morta pela ditadura Bolivariana não cola no caso de Armando Canizales. (..) É quase certo que o projéctil não foi disparado pela polícia, mas pelos próprios manifestantes. É sabido que alguns deles fizeram armas artesanais para os choques diários a polícia." [13] . 

A reacção rápida do Sr. Dudamel é representativa das numerosas personalidades artísticas submetidos a forte pressão mediática nos seus países, obrigados a fazer declarações para satisfazer a opinião pública, 99% convencida pelos media, para denunciarem a "repressão na Venezuela" ;. 

A 16 de Maio, o Le Monde denunciou " ;a morte de um jovem de 17 anos, baleado num comício contra o Presidente Maduro" ;. Não é verdade. A pesquisa mostra que Yeison Natanael Mora Castillo foi morto por um projéctil idêntico ao usado para assassinar o violista Canizales. Ele não participava numa reunião anti-Maduro. Seus pais são membros de uma cooperativa em luta para recuperar um latifúndio de sete mil hectares, suportando desde há muito ataques do grande proprietário. Eles apresentaram uma queixa contra os organizadores da marcha da oposição, e numa entrevista ao jornal local Ciudad Barinas denunciaram a manipulação que falsamente atribuía ao governo Maduro o assassinato de seu filho. [14] 

Imputar sistematicamente ao governo bolivariano os assassinatos cometidos pela direita, é todo o "jornalismo" de Paulo Paranaguá no Le Monde. Em 21 de Abril, atribui aos colectivos chavistas a morte de um estudante de 17 anos, Carlos Moreno, morto por uma bala na cabeça, bem como de Paola Ramírez Gómez, de 23. Dupla mentira. De acordo com a família de Carlos Moreno, o adolescente não participava em qualquer manifestação e dirigia-se para um torneio de desportivo. O assassino foi preso: é um membro da polícia de Oscar Oscariz, presidente da Câmara Municipal de Sucre. O jornal da oposição Tal Cual assim relata. [15] . Quanto à segunda vítima referida por Paranaguá, Paola Rodríguez, o seu assassino foi preso pelas autoridades: é Ivan Aleisis Pernia, um militante da direita. 

O "diário dos mercados" ; não é o único a mentir de forma assim tão sórdida nesta 'luta pela liberdade'. O La Libre Belgique, New York Times, France-Culture, El Pais, Le Figaro, ou mesmo Mediapart são robôs da vulgata global. Esta invenção da "repressão" é tanto mais fácil quanto a imagem típica do manifestante maltratado por um polícia tem vantagem quando se é privado do contexto relativo à imagem. Longe da Venezuela, apenas alguns poderão dispor dos cenários onde jovens são treinados, armados, pagos para provocar as forças de segurança e produzir a " ;imagem" ; necessária. A concentração global dos meios de comunicação e a crescente convergência de redes sociais com os grandes media fazem o resto, fixando o imaginário tanto à esquerda como à direita. Vêem-se assim os politicamente " ;insubmissos" ; submeterem-se aos media e acrescentarem sem dar por isso a sua pedrinha para a campanha global: 

Os que retransmitem na internet este poster provavelmente não imaginam a falsidade que se esconde por trás do " ;Anonymous Venezuela" ;. A capacidade da extrema-direita de se servir de alguns símbolos do movimento alternativo global e capitalizar apoios é revelada aqui: Quando cai a máscara de Guy Fawkes da oposição venezuelana". [15] 

Em suma, como se da história da propaganda e das guerras nada se tivesse aprendido, caímos sem cessar na armadilha. Malcolm X tinha prevenido: "se não tivermos cuidado, os media vão fazer que as vítimas sejam consideradas os torturadores e os carrascos as vítimas" ;. Transformando a violência da extrema-direita em "revolta popular", travestindo de " ;combatentes da liberdade" ; assassinos nostálgicos do apartheid dos anos 90, é em primeiro lugar contra os cidadãos da Europa, que a uniformização mediática se volta: a maioria dos telespectadores, leitores e ouvintes apoiam sem saber uma agressão para derrubar um governo democraticamente eleito. Sem a democratização em profundidade da propriedade dos media, a profecia de Orwell acaba por ser tímida. A Venezuela é suficientemente forte para evitar um golpe como aquele que acabou com a unidade popular de Salvador Allende, mas a crescente desconexão da população de ocidente com o mundo voltar-se-á contra ela própria. 

Micromanual de autodefesa perante a vaga mediática

"A Venezuela é um "regime ditatorial" . Falso. Desde 1999, a Venezuela bolivariana organizou um número recorde de votos (25), reconhecidos como transparentes por observadores internacionais. De acordo com o antigo presidente do Brasil Lula da Silva, é um "excesso de democracia". Por Jimmy Carter, que observou 98 eleições em todo o mundo, a Venezuela tem o melhor sistema eleitoral no mundo. Em Maio de 2011, o relatório da canadiana Fondation pour l'Avancée de la Démocratie (FDA) colocou o sistema eleitoral da Venezuela no primeiro lugar do mundo pelo respeito das normas de base da democracia. A ONG chilena Latinobarómetro estabeleceu no seu relatório de 2013 que a Venezuela bate registos da confiança dos cidadãos na democracia na América Latina (87%), seguidos por Equador (62%) e México (21%). O Presidente Nicolás Maduro acaba de lançar um processo participativo para a Assembleia Constituinte que permite que todos os sectores sociais façam as suas propostas, o que vai resultar num novo escrutínio, tendo também reafirmado que as eleições presidenciais terão lugar em 2018, conforme estipulado na lei. 

"Não há liberdade de expressão para a Venezuela" Falso. Das mais de 1000 estações de rádio e televisão, a que o Estado concedeu permissão para emitir, 67% são privadas (a grande maioria opostas à Revolução Bolivariana), 28% estão nas mãos das comunidades, mas transmitem apenas a um nível estritamente local e 5% são Propriedade do Estado. Em 108 jornais que existem, 97 são privados, 11 públicos; 67% da população venezuelana tem acesso à internet. Esta plataforma é dominada pelos media privados, reforçada pela rede das transnacionais desempenha um papel crucial na desinformação e no serviço de desestabilização. Para um dossier pormenorizado e quantificado desta paisagem mediática ver "François Cluzel ou l'interdiction d'informer sur France-Culture". [17] 

"Existem prisioneiros políticos na Venezuela". Falso. A menos que se considere "presos políticos" assassinos de extrema-direita do partido Aurora Dourada presos na Grécia. No Estado de direito, quer se chame França ou Venezuela, ser de direita não significa estar acima da lei, nem poder cometer impunemente crimes como assassinatos, ataques à bomba ou ser corrupto. Não é pelas suas políticas, mas por este tipo de crimes que as pessoas têm sido julgadas e aprisionadas. [18] Na prática, observa-se também um certo laxismo da justiça. De acordo com pesquisas da empresa privada Hinterlaces , 61% dos venezuelanos consideram que os promotores da violência e actos de terrorismo devem responder pelos seus actos perante um tribunal. [19] 

Lembremos que os actuais líderes da direita nunca respeitaram as instituições democráticas: estes são os mesmos que, em Abril de 2002, lideraram um sangrento golpe de Estado contra o Presidente Chavez, com a ajuda da confederação patronal local e soldados treinados na School of Americas. Estes são os mesmos que organizaram a violência de 2013 a 2016. Observe-se a identidade de um dos seus mentores 

Alvaro Uribe, um dos maiores criminosos contra a humanidade da América Latina, antigo presidente de um país governado pelo paramilitarismo e os cartéis de drogas, que tem as maiores valas comuns do mundo, o que conta 9 500 prisioneiros políticos, 60 630 pessoas desaparecidas nos últimos 45 anos e que desde a assinatura dos acordos de paz retomou uma política selectiva de assassinato de líderes sociais e defensores dos direitos humanos. Para informações completas e fotos destas ligações dos heróis do Le Monde com o paramilitarismo colombiano, leia-se Venezuela: la presse française lâchée par sa source? 

Thierry Deronne

Venezuela, 20 de maio de 2017. 

Notas 
[2] Entrevista integral de Cristina Kirschner com Jorge Gestoso www.youtube.com/watch?v=-WM6nD6hPu0 
[8] Como reconhece Julio Borges, líder do partido de extrema-direita Primero Justicia e atual presidente da Asembleia Nacional, numa entrevista não complacente que lhe fez o jornalista da BBC Stephen Sackur, em 19 maio de 2017: bbc.co.uk/programmes/p052nsxd 
[10] Detalhes de vários casos no site Parquet bit.ly/2ro4iXE ; bit.ly/2qE9MNb ; bit.ly/2q5RsbU  ; bit.ly/2rnNT5s 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 

Resistir.info - A crise venezuelana aprofunda-se. O governo respondeu ao assédio da direita e dos EUA lançando a iniciativa da Assembleia Constituinte. A sua intenção foi produzir uma mudança radical de cenário, convertendo os seus atacantes da direita em assediados golpistas por uma provável avalanche popular mobilizada para um novo modelo institucional, fundada no poder comunal, expressão directa das maiorias populares. As redes sociais e um número crescente de autores referem-se à perspectiva de uma "guerra civil". 

A oposição de direita aparece girando em torno de dois pólos, um extremista, que alguns descrevem como "uribista" (de Uribe ex-presidente colombiano), imerso num raivoso neofascismo, que postula o derrube urgente do governo e a instalação de um regime de terror anti-chavista e outra mais moderada – que pressiona para a realização de um tipo de golpe suave ou até mesmo a antecipação das eleições presidenciais em que supõe sair vitoriosa. A perspectiva de um levantamento armado imediatamente assistido por uma intervenção externa, colombiana ou multinacional, pilotada por Washington, é vista cada vez mais por todos eles como altamente provável (e desejável embora ainda nem sempre confessado). 

Por seu lado, o governo procura ganhar tempo, procura meter umas rasteiras à direita, como a de convocar a Assembleia Constituinte, pretende dividi-la estabelecendo pontes de negociação com a suposta oposição civilizada. O seu objectivo publicitado diariamente é a "paz". Alguns supõem que é uma estratégia hábil que deveria reduzir o espaço social da direita empurrando os seus sectores "moderados" para negociação, e estabelecer áreas de convergência com o chavismo. Mas no chavismo aparecem vozes críticas, ressaltando que este pensamento de pacifismo a todo o transe anula as perspectivas revolucionárias bolivarianas, enterra as bandeiras do socialismo do século XXI e na realidade expressa a vontade da "boli-burguesía", uma burguesia arrivista que se desenvolveu nos últimos anos à sombra dos negócios com o Estado e mais em geral com a direita chavista tentando estabelecer uma espécie de acordo conservador, pacto de unidade nacional onde navegariam triunfantes os expoentes da velha e da nova burguesia. 

Carlos Morreo, por exemplo, estabelece a diferença entre o " ;chavismo governamental" ; e "o chavismo amplo" [1] que outros identificam como o "povo chavista" animado pelas façanhas de seu líder histórico, transcendendo as jogadas tácticas deste ou daquele dirigente. Reinaldo Iturriza Lopez, que foi até há pouco ministro do Poder Popular para as Comunas e, mais recentemente, ministro da Cultura afirmou que "chavismo é, para dizer como John William Cooke, "o empreendimento maldito da política burguesa de um país". Cooke referia-se, claro, ao peronismo, num texto de 1967, mas a sua frase aplica-se ao caso venezuelano. 

O chavismo é, desde a sua criação, um fenómeno "maldito" para a burguesia, porque aquilo que lhe dá coesão não é sua capacidade de aglutinar o descontentamento, mas seu forte antagonismo contra o status quo. Antagonismo que adquiriu aspectos anti-capitalistas com o passar dos anos e no calor da luta como assumiram de viva voz tanto Chávez como as suas linhas de forças mais avançadas [2] . 

Encontramo-nos então perante o inevitável confronto entre uma direita contra-revolucionária, firmada ideologicamente no capitalismo e no elitismo colonial e o povo chavista transbordando, com apenas a sua presença, os limites do sistema. Neste caso, paz é uma quimera porque são duas forças históricas avançando em sentidos opostos. Dia a dia a avalanche de acontecimentos, caos económico, incessante bombardeio mediático global sobre a Venezuela, dificultam olhar a realidade para além da desordem quotidiana. 

Petróleo e geopolítica 

A Venezuela tem a maior reserva mundial de petróleo (cerca de 300 mil milhões de barris de crude, de acordo com as estimativas mais recentes), quase um quinto do total mundial, superando a Arábia Saudita (cerca de 265 mil milhões de barris). Em 2003 quase 70% das exportações de petróleo venezuelano foram para os Estados Unidos mas em 2016 tinham caído para 20%, em alternativa 40% vai para a China e 20% para a Índia. 

Esta orientação asiática (principalmente chinesa) da maior reserva de petróleo do mundo, longe da velha dependência do mercado imperial, constitui um casus belli de primeira ordem na estratégia dos Estados Unidos, a perda da Venezuela agora associada à China aparece como uma situação intolerável. Mais ainda quando as ilusões americanas sobre a sua produção de xisto betuminoso arrefeceram de acordo com a previsão oficial dada pela Energy Information Administration: no ano 2021 iria atingir-se o nível mais alto deste tipo de produção e a partir daí começaria a declinar. [3] 

As reservas petrolíferas do império esgotam-se e também a paciência de Washington, o império está a perder a sua grande guerra asiática e com isso a sua ilusão de controlar a maior parte das reservas de gás e petróleo do planeta. Consequentemente, a reconquista da Venezuela passa a estar no primeiro nível de suas prioridades. Além disso, este projecto faz parte da estratégia de recolonização da América Latina, retaguarda histórica do império a que a derrota na Ásia atribui excepcional importância. 

Mas a recolonização da Venezuela não é uma tarefa fácil, não se pode lá realizar um golpe suave, nas suas diversas formas, como aconteceu nas Honduras, Paraguai, Brasil ou Argentina, principalmente porque não só existe uma força militar convencional fortemente influenciada pelo chavismo, mas também milícias populares e todo o apoio de uma alta capacidade de mobilização de milhões de chavistas. 

A intervenção das forças militares colombianas sempre foi uma alternativa, mas era difícil quando na retaguarda destas forças apareciam as FARC e seus milhares de guerrilheiros. Uma complexa estratégia de desarmamento dos rebeldes foi desenvolvida de maneira paciente e sistemática, pressionando os governos de Cuba, Venezuela e vários Estados progressistas da região que mediaram as negociações de paz, combinando ofertas atractivas, golpes baixos e um amplo espectro de acções directas e indirectas sobre as FARC, desenvolvendo uma Guerra de Quarta Geração de alto nível de sofisticação. 

O resultado foi positivo para Washington, as FARC concordaram em desarmar e a retaguarda estratégica dos militares e paramilitares colombianos estava livre de perigos. Agora o que é considerado como o melhor aparelho militar da região tem as mãos livres para cumprir as ordens do seu amo imperial e colocá-las no pescoço bolivariano. [4] 

Sem excluir a intervenção militar, por agora, os Estados Unidos desenvolvem uma estratégia de desgaste: sabotagem económica, guerra das ruas, ofensivas mediáticas, diplomacia de cerco, jogo de negociações e outras acções destinadas a isolar, degradar e dividir o inimigo chavista. Nos cálculos dos estrategas Imperiais é certamente o cenário do salto qualitativo passando do desgaste para uma insurreição político-militar fase convergente com a intervenção externa. 

Esperanças e frustrações 

De acordo com dados do Banco Mundial, em 1960, 61% da população venezuelana era urbana, em 1980 chegou a 79% em 2000 passou para 88% e em 2015 quase para 90%. Uma crescente massa populacional passou a estar nas grandes cidades, principalmente em Caracas, não como resultado da industrialização, mas da reprodução alargada de parasitismo. Destruição social levada a cabo por uma burguesia importadora e financeira dona do Estado que desde 1976, com a nacionalização da produção de petróleo, se apropriava das divisas geradas pelas exportações (em mais de 90% resultado de vendas de petróleo bruto e seus derivados), herdando, remodelado, o velho sistema dominante baseado nas exportações de couro, cacau e café, garantindo a continuidade do subdesenvolvimento. 

A economia de renda (petrolífera) bloqueou as possibilidades de desenvolvimento industrial e destruiu o tecido agrário, as vítimas do desastre passaram a engrossar as fileiras dos marginais. O modelo explodiu com o Caracazo (1989) [NR] e a vaga popular abriu o caminho da Revolução Bolivariana, Chavez era o seu líder. Este despertar das massas submersas moveu-se até à formulação de um horizonte pós-capitalista: o socialismo do século XXI. Mas o que aconteceu foi uma sucessão de obstáculos, dificuldades e deficiências que foram estabelecendo uma distância crescente entre os objectivos socialistas proclamados e a capacidade de reprodução, embora isto fosse degradado pelo país burguês que se pretendia superar. 

A burguesia comercial-financeira foi pressionada, às vezes golpeada, maltratada, mas não eliminada. Não só não foi superado o capitalismo como o seu funcionamento se tornou caótico, não tendo sido substituído pela estatização socialista (que o " ;socialismo do século XXI" ; chavista queria superar) nem pelo "socialismo, comunal" proposto produto da auto-organização das bases populares. No meio desta confusão, reproduziu-se a partir do Estado uma elite emergente parasitária com fachada de bolivariana e práticas corruptas: a boli-burguesía. O velho sistema decadente não só sobreviveu aos seus antigos crápulas mas gerou novos homens de negócios turvos. 

Fica assim colocada a tragédia com final em aberto, os seus atores estão à vista. A velha burguesia parasitária arrastando um vasto conjunto social multiforme onde as camadas médias têm um papel essencial, não têm um programa definido, apenas a fúria anti-chavista os reúne. Frente a ela um vasto espaço chavista agrupando civis e militares, boli-burgueses e massas populares radicalizadas, conciliadores com a direita e revolucionários. Espaço heterogéneo, que oscila entre a rendição honrosa e o salto para o pós-capitalismo. Enquanto isso, o império vai medindo forças, ajustando os dispositivos de intervenção, sabe que mesmo afastando o governo chavista nada lhe assegura o controlo do país e em consequência o seu petróleo.

Jorge Beinstein

Notas 
[1] Carlos E. Morreo, "La constituyente es una decisión estratégica", Aporrea, 06/05/2017, www.aporrea.org/actualidad/a245486.html
[2] Reinaldo Iturriza Lopez, "Chavismo y revolución¿que pasa en Venezuela", Rebelión, 31/08/2016, www.rebelion.org/noticia.php?id=2161151 
[3] US Energy Information Administration, AEO 2014, Early Release Overview. 
[4] É muito esclarecedor o recente artigo de Tony Lopez Rodrigues destacado membro da diplomacia cubana: "El gobierno de Colombia ante la crisis interna venezolana", 24.-04- 2017, PIA – Periodismo Internacional Alternativo – Nac&Pop, nacionalypopular.com/... 

[NR] Revolta popular em Caracas duramente reprimida pelo governo do social-democrata Carlos Andrés Perez com uma matança de mais de 3000 cidadãos. 

O original encontra-se em http://beinstein.lahaine.org/?p=541 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Pravda.ru - O Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (BAII) foi fundado no dia 25 de Dezembro de 2015 com o intuito de se tornar numa alternativa multilateral ao Banco Mundial, além da China agiram como membros fundadores os seguintes países: Austrália, Áustria, Brunei, Coreia do Sul, Geórgia, Alemanha, Jordânia, Luxemburgo, Mongólia, Myanmar, Países Baixos, Nova Zelândia, Noruega, Paquistão, Singapura e Reino Unido.

Desde então já conta com 57 Estados membros, tendo a Venezuela sido aceite em Março do corrente ano, juntamente com o Afeganistão, a Arménia, as Fiji, Hong Kong, Timor Leste, a Bélgica, o Canadá, a Etiópia, a Hungria, a Irlanda, o Peru e o Sudão. Note-se que ao contrário do Novo Banco de Desenvolvimento (também apodado de “Banco dos BRICS”) o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, apesar de impulsionado pela República Popular da China, não foi pensado para ser uma alternativa geopolítica multipolar, tanto que até à data as únicas grandes potências económicas que não o integraram são os Estados Unidos da América e o Japão, que contam com a presença dos seus aliados tradicionais no seio do BAII.

A cimeira de governadores do BAII ocorreu na passada sexta-feira, 16 de Junho, na Coreia do Sul e foi a primeira onde a Venezuela participou como membro de pleno direito. O BAII tenciona levar a cabo empréstimos destinados a países emergentes, investindo em áreas cruciais como a energia e os transportes, sendo visto como um contrapeso ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional, embora partilhe com estes vários Estados membros e o paradigma liberal, o que na realidade até poderá ser positivo uma vez que demonstra que vários Estados ocidentais, pese embora as diferenças de fundo social e político, estão interessados em colaborar com a Venezuela.

Simón Zerpa, um dos vice-presidentes do Ministério das Finanças da petrolífera estatal venezuelana, PDVSA, em comentário à agência noticiosa RT afirmou que a aceitação da Venezuela constituía “o reconhecimento do país dentro de organismos financeiros internacionais, a possibilidade de obter empréstimos em melhores condições e uma vitória perante o bloqueio de facto que algumas instituições mantêm com o intuito de asfixiar a nossa economia.”

Flávio Gonçalves


Foto: RT

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Este Domingo, 5 de Março, cumprem-se quatro anos desde que Chávez partiu fisicamente, o líder reconhecido da Revolução Bolivariana que neste século alterou a realidade política, social e económica da Venezuela.

A este propósito o comandante Hugo Chávez afirmou, “vamos varrer os últimos traços do Pacto de Punto Fijo”, quando era candidato presidencial em Maio de 2000, referindo-se ao acordo entre os três partidos que em meados do século XX estabeleceram um regime político na Venezuela.

“É agora que vamos começar a concretizar a justiça social que nós venezuelanos tanto desejamos e que tanto precisamos nesta terra bolivariana”, prognosticava o comandante Chávez nesse Maio de 2000.

De acordo com os resultados do relatório de 2013 da Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (CEPAL), a Venezuela figura como ao país com a maior redução da percentagem de pobreza até 2012.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) venezuelano especifica que a redução da pobreza passou de 28,9% em 1998 para 19,6% em 2013; enquanto a percentagem de lares em pobreza extrema era em 1998 de 10,8% e calculou-se em 5,5% em 2013.

Fora isto, o coeficiente de Gini – que mede a desigualdade entre as nações – que era de 0,486 em 1998, desceu para 0,398 em 2013.

“A Venezuela vai ser um país modelo na América Latina e nas Caraíbas, a Venezuela vai ser um país modelo para o mundo (…) onde todos os venezuelanos e venezuelanas terão os mesmos direitos ao trabalho, à saúde, à educação, à habitação e à vida”, foram algumas das palavras do líder socialista no princípio do século.

A taxa de desemprego desceu de 15,2% em 1999 para 7,1% em Abril de 2014; enquanto que o convénio com Cuba para a Saúde permitiu um serviço público mais inclusivo, permitindo atender a mais de 19 mil pessoas sem-tecto.

Em 1998 existiam 18 médicos por cada 10.000 habitantes, actualmente existem 58; de 5.081 clínicas construídas em quatro décadas do Pacto de Punto Fijo, houve um aumento para 13.721 em 13 anos. Os medicamentos de alto custo começaram a ser entregues gratuitamente aos cidadãos, principalmente os que padecem com patologias como cancro e osteoporose. 

Um dos maiores sucessos da Revolução Bolivariana: a criação em 2011 da Grande Missão Residência Venezuela (GMVV), que permitiu no passado dia 23 de Fevereiro a entrega de uma casa a um milhão e quinhentas mil famílias de todo o país.

“A entrega da residência número um milhão e 500 mil é um recorde mundial (…) Representa um esforço heróico. Nós somos o que dizemos e fazemos”, declarou nessa altura o presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Desde 1999 não foram poucas as adversidades que têm ameaçado constantemente o avanço da Revolução Bolivariana. Os desafios não cessaram e tampouco o vigor de um povo que se mantém num estado de luta permanente, unido pela força colectiva de Chávez, asseguram vários dirigentes do governo.

Uma das ameaças mais recentes é a dita guerra económica, denunciada pelo presidente Maduro como inescrupulosa medida que pretende utilizar uma via não política para alterar o rumo do país.

Iniciada por sectores vinculados à direita, o mecanismo aplicado foi a severa distorção das redes de distribuição e produção de produtos de primeira necessidade, entre eles os alimentos e os medicamentos. A resposta do povo chavista foi a criação de uma nova cultura socio-produtiva. 

Com base nos Comités Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), os venezuelanos tentam superar as deficiências manifestadas pelo sector e deste modo avançar juntamente com o Executivo na procura de soluções para a conjuntura económica.

Apesar das investidas perpetradas pelos sectores da direita nacional, 2016 foi o ano de maior demonstração de lealdade para com o projecto revolucionário e de amor para com o comandante Hugo Chávez por parte do povo venezuelano, que reafirmou o seu compromisso de avançar pela via da revolução e da construção de uma Venezuela potência.

Assim se exprimiu o vice-presidente venezuelano Tareck El Aissami no decorrer da apresentação do relatório de gestão correspondente a 2016 perante o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), esta sexta-feira.

El Aissami realçou que o governo bolivariano pôde fortalecer-se perante as dificuldades económicas e as agressões políticas, graças ao apoio de um povo heróico que tem sabido resistir às investidas da direita tanto nacional como internacional.

“Hoje mais que nunca o povo venezuelano confia na Revolução Bolivariana e confia numa nação soberana e independente. E não podíamos esperar menos de um povo que tráz dentro de si o sangue mestiço da América índia, de libertadores e libertadoras”, realçou.

Como parte do seu carácter revolucionário, Chávez advogou uma nova diplomacia com base na autodeterminação dos povos, no anti-imperialismo e na união entre os países da América Latina e das Caraíbas.

Uma união concretizada a 2 e 3 de Dezembro de 2011, quando se levou a cabo em Caracas a Cimeira Fundacional da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC).

Nessa ocasião, Chávez afirmou que “a CELAC nasce com um espírito novo; é a alma para a integração económica, política e social dos povos, algo bem distinto da OEA (Organização dos Estados Americanos), um organismo marcado pelo ultrapassado.”

A CELAC, constituída por 33 países latino-americanos e caribenhos, sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá, tem como objectivo integrar a região de maneira independente a quaisquer eixos hegemónicos.

Na II Cimeira, que decorreu a 28 e 29 de Janeiro de 2014 em La Habana (Cuba), declarou-se a região como território de paz e deu-se início à aproximação à China, mediante a criação do Fórum China-CELAC.

Durante o governo do comandante Chávez, iniciou-se no país um processo de inovação tecnológica em várias áreas sociais para brindar com um melhor serviço o povo venezuelano, além de impulsionar o desenvolvimento económico com o Convénio Bilateral de Cooperação e Transferência Tecnológica com a China em 2000.

Uma das conquistas, a empresa socialista Venezolana de Telecomunicaciones (VTELCA), celebrou no passado dia 18 de Fevereiro oito anos de trabalho em prol da inovação das novas tecnologias ao serviço da cidadania venezuelana.

Sob o foco revolucionário, a VTELCA apresentou o primeiro telemóvel criado e produzido na Venezuela, o Vergatario 1, com uma distribuição de 708.000 exemplares em 2016, de igual modo se concebeu o Vergatario 2, que contou com uma produção de 981.522 peças.

Antes da chegada de Hugo Chávez ao Palácio Presidencial de Miraflores, o investimento em ciência e tecnologia era praticamente nulo.

Desde 2009 que o projecto educativo Canaima revolucionou as práticas pedagógicas nas escolas públicas deste país sul-americano. O objectivo deste projecto era democratizar o acesso às novas tecnologias e torna-las ao alcance de todos de maneira gratuita.

Até 23 de Dezembro de 2016 foram entregues cinco milhões 263.164 computadores portáteis e tablets Canaima de modo gratuito a estudantes do ensino básico, médio, diversificado e universitário da nação.

TeleSUR/La Radio del SUR

Propósito

1 – Apoiar a Revolução Bolivariana, a qual tem provado repetidamente a sua natureza democrática, na luta para libertar os oprimidos da Venezuela.

2 – Defender a Revolução contra os ataques do imperialismo e dos seus agentes locais, a oligarquia venezuelana.

3 – Apoiar a nova confederação sindical, UNT, como sendo a legítima voz do movimento trabalhista.

4 – Rebater as distorções e as mentiras da comunicação social acerca da Venezuela e mobilizar o máximo de apoio possível na defesa destes pontos.

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